Pará lidera em casamentos de meninas e adolescentes

Pará lidera em casamentos de meninas e adolescentes
novembro 06 10:28 2017 Print This Article

Casamentos na infância ou na adolescência são causam 30% da evasão escolar.

O Brasil é o 4º país no mundo com maior índice de casamentos de crianças e adolescentes meninas. São mais de 554 mil meninas de 10 a 17 anos no Brasil – mais de 65 mil delas entre 10 e 14 anos, segundo estudo do Banco Mundial. Em estudo pioneiro da Plan International Brasil e Promundo de 2015 foi analisado o contexto do casamento infantil nos dois estados brasileiros com maiores índices, de acordo com o Censo de 2010: Pará e Maranhão. O número de meninas casadas é muito superior ao de meninos. Apesar dos altos índices de ocorrência, o tema quase nunca é tratado em público.

Segundo o Censo de 2010 foram 22.849 meninos de 10 a 14 anos casados, contra 65.709 meninas na mesma idade. Na faixa de 15 a 17 anos foram 78.997 meninos e 488.381 meninas. Outro destaque é a idade marital de 9,1 anos a mais para os homens, e as uniões informais são mais comuns que as formais, quando envolvem homens adultos com meninas. O casamento infantil acarreta em vulnerabilidades para as meninas e intensifica as desigualdades de gênero. O estudo do Banco Mundial aponta que ele responde por 30% da evasão escolar feminina no ensino secundário no mundo.

Para Cristina Romeiro, psicóloga do Ministério Público do Estado (MPE), com atuação há 27 anos na Promotoria da Infância e da Juventude, os dados revelam uma situação grave da infância brasileira e paraense, uma vez que a infância é a base da estrutura da personalidade da pessoa. “A infância é a fase do brincar, da socialização e do início da escolaridade”, explica Romeiro.

Ainda segundo ela, por toda essa fragilidade da infância é fundamental, em primeiro lugar, a proteção da família, com afeto, limites e garantias de direitos, da sociedade e do poder público. “É muito grave quando os números mostram que crianças são encaminhadas ao casamento. Isso remete à questão de gênero, da mulher ser usada, coisificada nas suas relações, se tornando objeto de uso e de prazer”.

Para ela, a sexualidade é uma questão de direito e liberdade. “Essas meninas, casando muito cedo e se envolvendo em relações conjugais amorosas, mostra que estão sendo usadas, como coisas em relações sexuais. Além de revelar uma sociedade que não protege sua infância e que as famílias estão despreparadas, sendo que estas muitas vezes estão em vulnerabilidade social ou em situação de risco”.

A psicóloga reforça que as crianças e adolescentes estão vivendo a sexualidade sem a maturidade psicológica. “Isso causa trauma e dano psíquico nas crianças, na infância brasileira e paraense, e compromete o futuro delas, a autoestima, a personalidade, o equilíbrio emocional, a confiança, causa evasão escolar ou baixa escolaridade, e uma mulher insegura, sem planos de profissionalização; e se ela não foi protegida como vai proteger os filhos dessa relação?”, questiona. Por fim, na opinião dela há dois caminhos para prevenir o problema: família e educação. “Políticas públicas precisam trabalhar a família e o papel do pai e da mãe, e a escola, que pode desenvolver a criança e o adolescente por meio dos aspectos cognitivos, da socialização, da arte, da literatura, da música, para fortalecê-las e não esquecer que elas precisam ser educadas com afeto, limite e proteção, seja da família, da escola, da sociedade e do poder público”, finaliza a psicóloga.

Por: Cleide Magalhães/O Liberal

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Ana Moreira
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