TDAH: como a doença atinge as mulheres

TDAH: como a doença atinge as mulheres
janeiro 13 11:05 2017 Print This Article

O prazo para finalizar as tarefas está acabando, mas a lista do que precisa fazer só aumenta. Não há outro jeito: você terá que trabalhar madrugada adentro para conseguir entregar tudo. Na manhã seguinte, o despertador não tocou – você se esqueceu de programar o alarme. Já atrasada, as coisas vão piorando: fica 15 minutos procurando a bolsa, as chaves e o carregador do telefone (que agora só tem 10% de bateria) e acaba perdendo o ônibus. “Hoje vai ser um dia daqueles”, pressente. Ao chegar ao trabalho, além dos colegas que falam alto, do barulho da rua e do telefone que não para de tocar, a cada dois minutos chega um e-mail ou mensagem importante que interrompem sua concentração. Quem nunca passou por uma manhã caótica dessas?

Esquecer onde estão as chaves, chegar atrasada ou perder documentos importantes acontece com qualquer pessoa. E para a maioria delas é isso: apenas um dia de confusão. No entanto, para as mulheres diagnosticadas tardiamente com déficit de atenção e hiperatividade (ou TDAH), o desafio de enfrentar as responsabilidades da vida adulta é ainda mais difícil. É como se sentir em meio a um furacão 24 horas por dia.

O que é TDAH

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade é uma condição do sistema nervoso central que impacta as sinapses neurais do cérebro. Os especialistas apontam para fatores genéticos, biológicos e ambientais como possíveis causas da doença. Ela geralmente se inicia na infância, acompanha o indivíduo ao longo de seu desenvolvimento e, na maioria dos casos, permanece durante a vida adulta.

A disseminação do diagnóstico de crianças hiperativas teve início entre as décadas de 1940 e 1950, nos EUA, mas apenas nos anos 1970 verificou-se que o distúrbio ainda persistia em adultos. Nas crianças, professores e psicólogos facilmente reconhecem os sintomas: falta de concentração, impulsividade, agressividade, ansiedade e mau desempenho escolar são os principais.

O transtorno de déficit de atenção não escolhe gênero

De acordo com dados publicados no Journal of Clinical Psychiatry, a maioria das crianças diagnosticadas até 2003 eram meninos, mas é um mito acreditar que o TDAH atinge apenas crianças e de gênero masculino. O especialista Mário Louzã, médico psiquiatra, doutor em medicina e especialista do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo (SP), explica que a atitude hiperativa ocorre (na maioria dos casos) em meninos, enquanto a tendência a distração é mais comum em garotas. “A criança que é mais quieta e distraída chama menos atenção dos pais e professores que aquela que é inquieta e atrapalha a aula. Daí a tendência de os indícios passarem despercebidos no caso das meninas”. Nelas, o transtorno é internalizado: são distraídas e vivem “com a cabeça nas nuvens”. A hiperatividade e agressividade podem também se manifestar, apesar de ser um comportamento mais comum nos garotos.

De 2003 a 2011, nos EUA, o diagnóstico em garotas cresceu 55%. Além de campanhas e reportagens chamando a atenção para a saúde mental das mulheres, uma das razões do aumento deve-se à atualização do Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), que alterou de sete para doze anos a faixa etária em que surgiriam os primeiros traços do TDAH (acredita-se que nas garotas os sinais surgem mais tarde que nos meninos).

TDAH adulto: quais são as consequências para na vida das mulheres?

​Quando o transtorno de déficit de atenção passa batido ao longo da infância, o indivíduo torna-se um adulto com dificuldades que impactam drasticamente seu bem-estar. Há indícios de que as transformações hormonais sofridas pelas mulheres pioram as manifestações da doença, enquanto que a chegada da puberdade aos garotos ameniza tais indícios.

Quais são os principais sintomas do TDAH?

Alguns dos comportamentos considerados sintomas de TDAH adulto são a desorganização, falta de concentração, o início e abandono de projetos (como graduações acadêmicas), depressão, baixa autoestima e ansiedade generalizada – que atinge cinco vezes mais pessoas com o transtorno. Sem diagnóstico e tratamento, tornam-se adultos com dificuldades em diversas áreas de suas vidas e, sem dúvida, uma delas é a profissional: cerca de 60% das pessoas são demitidas por problemas de comportamento, segundo levantamento da Attention Deficit Disorder Association, dos EUA.

Crescer com a frustração de falhar até nas aulas que você mais gostava e ainda ouvir dos professores e pais frases como “Se esforce mais!”; “Você é muito preguiçosa!”, sabotam qualquer autoestima. Ellen Litman, uma das autoras do livro Understanding Girls With AD/HD (sem título em português), diz que a falta do diagnóstico correto em mulheres tem efeitos devastadores: de cinco mulheres com TDAH, ao menos quatro delas sofrem com compulsões alimentares, relacionamentos abusivos e automutilação.

​“É comum confundirem a distração excessiva e a dificuldade em externar seu potencial como uma característica da personalidade. Elas carregam frustrações há anos – afinal, não conseguem atender os critérios socioeconômicos exigidos –, e acabam desenvolvendo ansiedade ou depressão, e só então procuram um médico. É preciso profunda análise para que o psiquiatra chegue ao TDAH”, diz Louzã. A “boa notícia”, conforme estudo americano, é que em mulheres adultas, entre 26 e 34 anos, o diagnóstico aumentou 85% de 2008 a 2012.

Tratamento de TDAH

Apesar da maturação do sistema nervoso central não ser descartada, especialistas não validam a cura do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade – o que acreditavam até os anos 1970 –, e sim no tratamento do TDAH com medicamentos de uso controlado e psicoterapia. “Os psicotrópicos regulam as alterações bioquímicas do cérebro, dando ferramentas para que o indivíduo, a partir de então, possa lidar sozinho com sua realidade. Em adultos, a terapia é indicada como uma ferramenta de suporte importante”, comenta o psiquiatra. Diminuir o impacto negativo que a dispersão e dificuldade em manter o foco causam já pode proporcionar uma mudança positiva na vida de pessoas com a doença.

O psiquiatra Mário Louzã conta que muitas pessoas recebem o diagnóstico com um certo alívio, ao mesmo tempo que sentem terem perdido tempo lidando com problemas que achavam parte do “jeito de ser”. É onde entra a psicanálise e autoconhecimento como peça fundamental para, de fato, ter segurança sobre as características que a tornam única – independentemente do transtorno.

Além do relato de mulheres que sofrem com a doença ajudar outras que procuram apoio, há instituições como a Associação Brasileira do Déficit de Atenção que, além de artigos, possui uma lista de especialistas em TDAH e que atendem em diversas capitais do Brasil.

Fonte: Tão feminino

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Ana Moreira
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