Nutricionista fala sobre dieta restritiva

Nutricionista fala sobre dieta restritiva
dezembro 03 14:38 2016 Print This Article

destaque-387436-dieta-restritivaSophie Deram, uma nutricionista francesa naturalizada brasileira, é contra dietas. Não aquelas prescritas para quem sofre alguma patologia, mas para quem simplesmente acha que pode emagrecer cortando tudo: carboidrato, glúten, gordura, lactose. Para ela, as dietas restritivas só estressam o corpo e fazem o cérebro alterar o metabolismo e o apetite, fazendo você engordar ainda mais a longo prazo.

Especialista em obesidade infantil e transtornos alimentares, ela defende um reencontro das pessoas com a comida – e com a cozinha –, como forma de ter saúde e peso estável. Esse, inclusive, é o tema do livro recém-lançado por ela: “O Peso das Dietas”.

“Essas dietas desregulam o cérebro. Ele não entende que você quer emagrecer, ele entende que você está passando por restrição, e se sente ameaçado. Uma das reações dele a esse estresse é aumentar o apetite e diminuir o metabolismo. Por isso, quatro entre cinco pessoas que fazem dieta vão engordar. E a maioria das pessoas fracassa em continuar porque o cérebro não entende o que esta acontecendo e faz de tudo para você voltar a comer. Quase todo transtorno alimentar começa com uma dieta. Tem gente que coloca criança de dieta. É como jogar uma bomba no cérebro dela”, aponta Sophie.

Por isso, para emagrecer, só fechar a boca não dá. Emagrecer envolve o corpo inteiro: dormir bem, fazer atividades físicas, cozinhar. “Eu, como pesquisadora, tenho três dicas, e elas vão parecer tão simples que você não vai acreditar: em primeiro lugar, não faça dieta. Depois, coma menos alimentos industrializados e mais naturais. E por fim, cozinhe. É simples assim! A ciência da nutrição é muito complexa, mas comer bem não é complicado. A gente tem que voltar a ter a relação tranquila que nossos avós tinham com a comida”, defende.Apesar de simples, Sophie conta que é difícil encontrar alguém que siga essas dicas. “Hoje, é como se ‘se cuidar’ fosse sinônimo de ‘fazer dieta’.

E as pessoas vão querer te fiscalizar, vão dizer coisas do tipo: ‘Como assim você está comendo bolo?’. Colocar mais alimentos verdadeiros significa comprar regularmente, ir mais à feira. A indústria ajuda, mas você não devia depender totalmente dela. E cozinhar parece difícil, mas é questão de planejar e de habilidade – que vai se adquirindo na prática”, afirma.

Medo da comida criou sociedade neurótica

A cada dia, um novo vilão, mais um alimento que não se pode comer mais. E essa é mais uma situação – tão preocupante quanto as dietas restritivas – a alterar o bom funcionamento do corpo. “As pessoas estão perdidas, não sabem mais o que comer”, diz Sophie.

O perigo alimentar é uma coisa relativamente nova, levando em consideração toda a história do ser humano. Por milhares de anos a dificuldade era encontrar comida. Hoje, temos em abundância, em supermercados, restaurantes, carrinhos de lanche, em todo lugar. Mas, então, comer virou uma coisa perigosa.

“Isso começou anos atrás, com a demonização da gordura”, aponta a nutricionista. Francesa, ela se deparou com o “terrorismo nutricional” pela primeira vez quando se mudou para Nova York, há cerca de 20 anos. “Eu nunca tinha visto aquilo. Tudo envolvia preocupação com o colesterol e para mim não fazia sentido. A gordura é muito presente na gastronomia, faz parte do gosto bom da comida. Fiquei acompanhando esse terrorismo com muita crítica. E vim estudar nutrição por causa disso”, conta Sophie, que era engenheira agrônoma – a segunda formação veio aos 35 anos.

“Essa vivência nos Estados Unidos me deixou muito constrangida. Depois da gordura, veio a demonização do carboidrato, depois da lactose, e quis entender: será que é tão perigoso assim?”, diz ela. O que a nutricionista percebeu é que esse terrorismo é muito exagerado frente ao que a ciência fala. “A sua única recomendação diz que é importante consumir alimentos mais verdadeiros, menos industrializados. Não está escrito que a gordura engorda”, diz ela.Com a globalização da informação, esse “terrorismo” está em todo lugar. “Eu lancei o livro em julho na França pensando ‘será que eles vão se interessar por ele?’. Meu Deus, todo mundo sem glúten, sem lactose, com medo de agrotóxicos, foram atrás do livro”, comenta Sophie. No Brasil, ela destaca, a busca do corpo perfeito e do remédio imediato e um menor hábito de cozinhar. “Tenho amigos brasileiros que cozinham, não é generalizar, mas aqui tem uma busca mais intensa, a qualquer custo, pelo corpo perfeito – o que inclui cirurgia, remédios”, aponta.

(Laís Azevedo/Diário do Pará)

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